Revisado: 29/10/2003

Módulo 54

 

Um Guia para o Editor

Parte I

H oje em dia, utilizando uma ilha de edição não-linear, podemos criar efeitos sofisticadíssimos. E é mesmo uma tentação querer impressionar o público (ou os amigos) com todos esses recursos.

No entanto, qualquer técnica de produção que chame a atenção sobre si, é ruim, na medida em que desvia a atenção da audiência do conteúdo do programa. Os profissionais de vídeo e TV sabem que as técnicas de produção devem passar desapercebidas para a audiência.

E isto se aplica particularmente às técnicas de edição.

Neste módulo vamos apresentar várias diretrizes sobre como proceder para conseguir uma edição suave e fluente. Como no caso do módulo que trata sobre composição, estas não são leis invioláveis. Vamos aproveitar também estas questões para introduzir alguns conceitos de edição ou regras que você deve ter em mente. Como você vai ver, muitas delas se aplicam aos programas gravados no estilo cinematográfico - com uma câmera só.

Dica 1: Motivando o corte

Toda vez, que fazemos um corte ou uma transição, corremos o risco de desviar a atenção da audiência, do conteúdo da narrativa. Para evitar que isso aconteça, devemos motivar os cortes.

Por exemplo, se um personagem olha para a direita, numa cena dramática, podemos utilizar esta ação para motivar o corte e mostrar quem, ou o que, chamou a atenção do ator. Quando uma pessoa faz uma pergunta e outra começa a responder, temos um motivo para cortar de uma para outra. Se ouvimos alguém chamando, fora de cena (off camera), esperamos ver a imagem desta pessoa. Se alguém pega um objeto para examinar de perto, é natural que o plano seguinte seja um close up daquele objeto.

Dica 2: Corte durante a ação

Sempre que possível, corte durante o movimento. Quando o corte é motivado pela ação, esta irá distrair a atenção sobre o corte e tornar a transição mais fluente.

Se um homem está se levantando de uma cadeira, por exemplo, você pode cortar no meio da ação, e utilizar, pedaços dos dois takes. Ao fazer o corte, lembre-se da lei dos 30 graus.

   

Continuidade na Ação e Detalhe

A s produções feitas com uma câmera só, exigem muita atenção para os detalhes. O diretor geralmente, grava vários takes, de uma mesma cena. O editor ao cortar de um take para outro, deve estar atento à posição dos atores - mãos, pés, etc. - e à intensidade de interpretação - expressa na voz e gestos - para evitar inconsistências na sequência.

É conveniente também, se certificar que nada mudou na cena e que o ator está fazendo, exatamente a mesma coisa, da mesma maneira, que no take anterior.


Observe estas fotos, se cortássemos do Close up para o Plano Geral, o público iria estranhar a mudança de posição do rosto da mulher, na cena.

É importante que o ator obedeça à marcação de cena - as palavras e gestos devem ser sempre os mesmos - durante a gravação de takes em ângulos e planos diferentes, para que estes possam ser aproveitados durante a edição.

Nas gravações de novelas, onde as cenas não são concluídas ou gravadas no mesmo dia. O continuísta cuida de registrar detalhes do figurino e maquiagem dos atores, a posição dos personagens e objetos de cena (tudo o que pode ser movido) para evitar problemas de continuidade.

É muito fácil de acontecer, que um objeto que estava no chão seja recolhido e guardado, ao final da gravação de uma tomada, ou colocado num local diferente, antes que a câmera comece a rodar o próximo take. Quando os dois planos são unidos, o objeto desaparecerá ou mudará instantaneamente, de lugar, sem explicação plausível para o fato.

Observe estas duas tomadas, você consegue ver os problemas que teríamos ao uní-las?Além do desaparecimento dos brincos, note a mudança no penteado.

   

Entrando e Saindo de Quadro

C omo editor, freqüentemente, você terá de cortar uma cena, quando alguém sai de quadro e então cortar para outra cena, quando a pessoa entra.

É melhor cortar a primeira cena, quando os olhos da pessoa cruzarem a borda do quadro, à direita (assumindo-se que esta tenha saído por este lado). E então, cortar para um ponto da segunda cena, (mais ou menos 6 quadros) antes dos olhos da pessoa entrarem em quadro, novamente (pelo lado esquerdo, se o eixo da ação estiver correto).

Estes 6 quadros são significativos. O olho humano precisa de 1/5 de segundo para mudar de um lado para o outro do quadro. Durante este tempo, qualquer coisa que esteja acontecendo na tela se torna meio confusa e os espectadores precisam de um pouco de tempo para se adaptar e mudar o foco para a nova ação. Caso contrário, o intervalo perdido poderá criar uma espécie de pulo na ação.

E ditores e mágicos são ilusionistas. Eles utilizam o conhecimento da percepção humana, para distrair o público e desviar a atenção do que eles não querem que seja visto ou notado. Como um bom mágico, o editor tem seus truques para encobrir as inconsistências das gravações realizadas com uma câmera só.

O editor sabe, por exemplo, que quando um personagem fala, a atenção do público está voltada para os olhos e a boca do ator e portanto dificilmente, irá reparar em detalhes incongruentes, em outras partes da cena. Ou, como já vimos, ele utiliza - inserts e cut aways - para desviar a atenção momentaneamente e encobrir jump cuts.

Dica 3: Os pontos fortes e as limitações do Meio

A Televisão é o Veículo do Close-up.

Parte significativa do detalhe da imagem, se perde nos sistemas de transmissão de TV - NTSC, PAL, SECAM - que utilizam entre 525 e 625 linhas. A única maneira de se mostrar detalhe na televisão, com clareza, é através de close-ups. O Plano Geral deve ser usado, apenas momentâneamente, para orientar a audiência quanto à localização dos personagens e objetos de cena - establishing shot e reestablishing shot. No mais, o editor deve priorizar a utilização dos Planos Médios e Close ups.

C lose ups são excelentes para entrevistas e programas dramáticos. São insubstituíveis para captar emoções, reações e revelar traços de caráter de entrevistados ou personagens.

Devemos evitá-los porém, na edição de comédias. Em comédias, os Planos Médios mantêm o clima leve e a audiência à uma distância conveniente das emoções e pensamentos dos atores.  


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© 1996 - 2002, Ron Whittaker
Tradução Graça Barreiros