Revisado: 29/10/2003

Módulo 52

  

  Soluções para Problemas de Continuidade

C omo vimos, em produções dramáticas, a audiência aprendeu a aceitar a técnica de omissão de material irrelevante, em prol do desenvolvimento da estória. Mesmo assim, alguns tipos de descontinuidade na ação incomodam e por isso devem ser evitados.

Quando isto acontece, dizemos que é um jump cut - um pulo no conteúdo ou na ação, esteticamente brusco, confuso e desconfortável.

Se observarmos bem , iremos encontrar muitos exemplos dessas pequenas descontinuidades, em filmes e programas semanais de TV. Alguns exemplos:

  • Tomada de dois - Casal conversa num barco. O vento sopra e agita seus cabelos. Na cena seguinte, Close up da mulher - o vento, inexplicavelmente, parou de soprar.
  • Close-up de uma atriz, às gargalhadas. No corte seguinte, de volta ao plano seqüência, ela está séria.
  • Um casal de namorados no shopping. O rapaz abraça a namorada pela cintura. No plano seguinte, o seu braço está no ombro da moça.

T odos esses problemas têm origem na fase de gravação de programas produzidos com apenas uma câmera, onde takes de uma mesma cena são gravados em dias diferentes.

Seria ótimo se estas descontinuidades fossem percebidas à tempo, para que as cenas fossem prontamente, refeitas. Desta maneira, não teríamos que fazer remendos na hora da edição. Mas, felizmente, existem soluções para evitar gastos extras de tempo e dinheiro com a regravação de cenas.

  

Evitando Cortes Bruscos na Ação

C omecemos pelo jump cut em uma produção dramática.

Voltemos à cena da mulher que se arruma para o grande encontro. Ela desliga o telefone na cozinha, caminha apressadamente - da esquerda para a direita - e sai pela porta, à direita do quadro.

Na cena seguinte (gravada horas ou até dias, mais tarde) ela entra em quadro pela direita e vai para o chuveiro, se movendo - da direita para a esquerda. Esta mudança na direção da cena nos faria pensar (e à audiência), que ao sair da cozinha, a mulher deu meia volta e caminhou na direção oposta para chegar ao banheiro.

A solução para a maioria desses problemas é a utilização de inserts e cut-aways.

Para resolver este problema de continuidade específico, poderíamos, por exemplo, gravar um close up das mãos de alguém - que pudessem passar pelas da atriz - retirando uma toalha da gaveta. Isto iria dar variedade visual à seqüência e disfarçar a inversão na direção da cena do banheiro.

Poderíamos também, considerar um corte para a cena que mostra a mulher em frente ao armário, escolhendo a roupa que irá usar. Ou mesmo, tentar eliminar o início e o final das duas cenas, a fim de omitir a entrada e a saída da atriz, de quadro.

  

Editando Entrevistas

E ntrevistas dificilmente vão ao ar na íntegra. A audiência habituada com a linguagem dinâmica da TV, iria se entediar rapidamente com as respostas que se desviam do assunto, com entrevistados pouco eloqüentes, ou simplesmente ...chatos.

Normalmente, acabamos gravando dez vezes mais material, do que iremos utilizar no programa final. O trabalho do editor não é fácil. Ele tem de conhecer bem o material gravado, selecionar as falas importantes e realizar os cortes evitando as mudanças bruscas de humor, ritmo e retórica. Além disso, a transição entre os segmentos de áudio deve ser suave e imperceptível.

Cortes na fala, geralmente, resultam em "pulos" na imagem do entrevistado. A solução é utilizar inserts ou cut aways de 3 ou 4 segundos, para disfarçar o corte (veja a ilustração ao lado).

O tipo de cut away mais utilizado na edição de entrevistas é conhecido como "plano de reação" - por exemplo: o repórter ouvindo atentamente o entrevistado.

Idealmente, estes planos são gravados numa fita de vídeo separada - conhecida como B-roll . A fita usada para gravar as respostas do entrevistado é chamada A-roll . Em edição linear, este processo de gravação em duas fitas diferentes facilita bastante as coisas. Voltaremos a este assunto mais tarde.

Este material suplementar - B-roll - é essencial para que o editor possa resolver problemas durante a edição e seja capaz de fazer transições suaves. Por isto, o cinegrafista deve se preocupar em gravar uma variedade de takes suplementares, em todas as entrevistas - inserts e cut aways - imagens que tenham relação e possam contribuir para tornar a edição visualmente interessante.

  

Mudanças Bruscas no tamanho da Imagem

U m outro tipo de "jump cut" acontece quando cortamos para uma imagem de tamanho muito diferente.



Cortar de um Plano Geral para um Close up, como ilustrado nas fotos acima, pode resultar num corte muito brusco. Devemos utilizar um Plano Médio para suavizar a transição e dirigir a atenção da audiência para o novo foco.

A fórmula 1-2-3 evita o problema. A cena começa com:

1. um Plano Geral (também chamado de master shot ou establishing shot ), depois,

2. cortamos para um Plano Médio, e então,

3. cortamos para uma variedade de close-ups.

Esta ordem, também, pode ser invertida.

Com freqüência, precisamos voltar ao Plano Geral - especialmente, durante e após a movimentação dos atores - para relembrar à audiência sobre a localização dos personagens e objetos em cena. Quando isto acontece, dizemos que estamos cortando para um re-establishing shot .

A fórmula 1-2-3  (Plano Geral - para Plano Médio - para Close up) é a mais tradicional (e foi mandatória em muitos estúdios de cinema, numa determinada época). Mas, existem ocasiões em que o editor desejará utilizar outros métodos.

Por exemplo, começar a cena com um Big Close up de um determinado objeto, irá advertir a audiência que este é um elemento importante para a narrativa e que merece atenção especial. Este objeto, numa produção dramática, poderia ser uma foto amassada ou uma arma. Uma vez estabelecida a sua importância, a câmera poderá prosseguir num movimento de dolly ou zoom, para revelar o cenário onde a ação se passa.  


Ângulos de Gravação

O utro tipo de "jump cut" é resultante de cortes entre planos quase idênticos.

Este corte brusco é difícil de justificar, já que a nova imagem não traz nada de novo e o corte em si, visualmente parece um erro grosseiro. Para evitar essa situação, devemos obedecer à lei dos 30 graus .

De acordo com ela, um novo take do mesmo objeto só é justificável se apresentar uma mudança de ângulo de, pelo menos, 30 graus.

É claro, que cortar para um take significantemente diferente - como por exemplo, de uma tomada de dois, para um take de uma pessoa - estaria OK (mesmo que este fosse gravado do mesmo ângulo), já que os dois planos são basicamente distintos.
O utra questão relacionada com o ângulo de gravação é a da direção da ação na tela. Observe as fotos abaixo: um casal conversando pelo telefone. Qual seria a direção mais lógica se quiséssemos cortar de uma tomada para a outra: a mulher olhando para a direita (primeira foto), ou para a esquerda (segunda foto)?

../phone_rev.jpg ../phone_right.jpg ../phone_left.jpg

O normal quando duas pessoas estão conversando é que elas se encarem. Embora isto seja absolutamente claro quando olhamos para estas fotos, quando estamos produzindo um vídeo com uma câmera só - e as tomadas são gravadas com horas ou mesmo dias de diferença - é fácil cometer este tipo de erro.   


Cruzando "a Linha"

E finalmente, chegamos ao problema de continuidade mais embaraçoso e difícil de resolver durante a edição e que se refere ao eixo da ação .

Todas as vezes que um novo ângulo de câmera ultrapassar 180 graus, você terá "cruzado a linha" - o eixo da ação - e a direção da cena será invertida na tela.

Embora algumas técnicas, aqui descritas, possam ser de grande ajuda, o melhor mesmo, é ficar atento durante a gravação para se evitar o problema.

Quem gosta de futebol sabe que a direção da ação no campo se inverte, quando o diretor corta para uma câmera localizada do lado oposto do gramado. Imagine a confusão da audiência, se durante uma jogada, a direção da ação se invertesse?

Por este motivo, isto jamais é feito durante o jogo play - somente em replay. E isto só é justificável, se as imagens daquela câmera (geralmente, acompanhadas de uma explicação) revelarem algo, que as outras câmeras não conseguiram captar.

Este tipo de descontinuidade é óbvia e imediatamente percebida durante a cobertura de eventos, ao vivo - onde as imagens de todas as câmeras são monitoradas na mesa de corte. O problema é muito menos óbvio, quando precisamos gravar atores de vários e diferentes ângulos, em produções realizadas com uma câmera só, no estilo do cinema.

Observe a foto ao lado, digamos que você queira gravar um close up do homem, à esquerda do quadro.

Se a câmera fosse posicionada sobre o ombro direito da mulher, (atrás da linha azul), teríamos cruzado o eixo e o homem pareceria estar olhando para a esquerda, ao invés de olhar para o casal à direita.

Se todos os close ups forem gravados na frente da linha azul a linha do olhar (direção e ângulo) será coerente com a que foi apresentada no establishing shot.

O casionalmente, o diretor irá violar intencionalmente, a regra dos 180 graus para conseguir um efeito dramático. Por exemplo, durante uma cena de rebelião, o diretor pode decidir cruzar a linha em muitas tomadas, para caracterizar confusão e desorientação.

Mas, se o objetivo for clareza, o editor deve ficar atento para evitar que este tipo de descontinuidade ocorra durante a edição.


Voltar ao Índice             Próximo módulo


Search For Terms     

Bibliography / Additional Readings                      To TV Production Index

                  

© 1996 - 2002, Ron Whittaker
Tradução Graça Barreiros