Revisado: 29/10/2003

Módulo 50

 

Continuidade

Edição

 

 

A edição é a força criativa da realidade fílmica....e a fundação da arte cinematográfica" (V.I. Pudovkin, 1915)

Pudovkin fez esta declaração há mais de 80 anos, e desde então, a edição de filmes e vídeo se tornou ainda mais importante.

É durante a edição do filme ou vídeo que se estabelece a estrutura e o conteúdo da produção, juntamente com a atmosfera, intensidade e ritmo da narrativa.

Nos próximos módulos iremos explorar as várias dimensões deste tópico. Vamos começar falando de continuidade.

Continuidade na edição se refere basicamente à ordenação das seqüências de planos, para sugerir o progresso da ação. Um editor pode utilizar os mesmos takes, para sugerir situações bastante diferentes. Consideremos as seguintes tomadas:
animgun.gif (30870 bytes)

  • um homem com uma expressão de surpresa no rosto.
  • um outro homem saca uma arma e atira na direção da câmera.

Nesta ordem - 1, 2 - parece que um homem foi ferido. No entanto, se invertemos a ordem das cenas - 2, 1 - irá parecer que o homem é testemunha ocular de um tiroteio.

Vejamos o que podemos fazer com estas três tomadas:

  • pessoas saltando de um carro.
  • um carro pegando fogo
  • uma explosão

A seqüência 1-2-3, sugere que as pessoas estão saindo do carro, segundos antes, deste explodir.

Se ordenamos as tomadas 3-2-1 , a explosão acontece, o carro incendeia e as pessoas são obrigadas a se jogar para fora.

Em 2-3-1, as pessoas saltam do carro depois que um incêndio provoca uma explosão.

Se mudamos para 2-1-3, irá parecer que as pessoas, fugindo de um incêndio, conseguem escapar da explosão.

Fizemos tudo isso com apenas três tomadas!!!!

Imagine o que um editor pode fazer com as centenas de cenas e takes - normal em produções dramáticas - que lhe chegam às mãos. O editor tem um tremendo controle sobre a continuidade e a mensagem de um programa.


 
Contrariando a Continuidade

A continuidade na edição visa primariamente guiar a audiência através de uma seqüência de acontecimentos, mostrando o que ela quer ver, na hora em que ela quer ver. E desta maneira, contar a estória, ou pelo menos, apresentar uma série de eventos, de maneira lógica, com começo, meio e fim.

Bons editores de produções dramáticas, às vezes, fogem do esperado para conseguir um efeito dramático. Contrariar as expectativas da audiência pode criar tensão. Por exemplo:

  • Um homem trabalhando em seu escritório, de madrugada.
  • Ouve-se uma batida na porta.
  • O homem diz mecanicamente:"Entre."
  • Ele olha para o alto, para ver quem entrou e sua expressão de calma se transforma em alarme.

Porquê? Não sabemos. Onde está o take da pessoa ou criatura que acabou de entrar? O que acontece se não cortamos para este take tão esperado? A audiência é deixada em suspense e pode ficar mais curiosa e apreensiva - ou ressentida e frustrada.

P or exemplo, numa matéria sobre as novas notas de U$ 100 - um especialista descreve os detalhes que devem ser observados na cédula, para evitar as notas falsificadas. Um Plano Médio mostra o especialista e o repórter examinando a nota, com atenção.

Obviamente que durante a explicação, a audiência também gostaria de ver um Close-up da nota, para acompanhar o que está sendo dito. Se o take é omitido, a audiência se sentirá frustrada.

A menos que você queira deixar a audiência confusa, momentaneamente, para criar um efeito dramático, tenha sempre em mente o que você pensa que a sua audiência espera ver, a cada momento, e só quebre esta regra para intensificar o momento dramático. Você verá que fazendo isto, grande parte da EDL - edit decision list (lista de decisões de edição) irá se escrever por si.

Em programas jornalísticos e documentários os fatos devem ser apresentados da forma mais clara, objetiva e lógica, possível. Imagens e informações supérfluas devem ser excluídas, para evitar mal entendidos e confusões.

Em produções dramáticas, existe mais espaço para a criatividade. Neste tipo de produção, muitas vezes, é desejável deixar algumas coisas em aberto, para dar margem à interpretação pessoal.


Manipulando o Tempo

E m produções de vídeo e filme, a manipulação do tempo é uma rotina. O tempo pode ser expandido ou condensado.

Por exemplo, digamos que queremos contar a estória de uma mulher que tem um encontro importante. Poderíamos observá-la se preparando: escolhendo a roupa, tomando banho, secando os cabelos, se maquiando, se vestindo, se olhando no espelho, dando os últimos retoques, pegando o carro e dirigindo para o local do encontro. Em tempo real, esta cena poderia durar pelo menos 90 minutos - o tempo de um longa metragem - e ainda nem chegamos à parte mais interessante do filme: o encontro!

A preparação para o encontro - que durou 90 minutos - poderia ser mostrada em apenas 20 segundos :

  • Mulher acaba de falar no telefone e sai rapidamente de quadro.
      (3 segundos)
  • Ela tira uma roupa do armário.  
    (2 segundos)
  • Imagem da porta esfumaçada do chuveiro. (2 segundos)
  • Alguns takes da mulher secando os cabelos. (5 segundos)
  • Ela abre a porta do apartamento e sai.   (2 segundos)
  • Alguns takes da mulher dirigindo.
    (4 segundos)
  • E finalmente, estaciona o carro na frente do local do encontro.
      (2 segundos)

Ou, que tal esta versão?

  • take 1 - Mulher desliga o telefone, pula de alegria e sai de quadro.
  • take 2 - Ela chega ao local do encontro.


Expandindo o Tempo

O casionalmente, o editor ou diretor pode querer expandir o tempo real de um acontecimento, para criar um efeito dramático.

O famoso diretor Alfred Hitchcock, (Psicose, etc.) nos dá um ótimo exemplo. Uma cena mostra um grupo de pessoas alegres numa festa, que terminará com a explosão de uma bomba relógio, escondida debaixo da mesa de jantar. A versão em tempo real, mostraria:

  • pessoas sentadas à mesa
  • a bomba explode fim da cena... todos morrem.

Mas, Hitchcock, um mestre do gênero, sabia que a atmosfera de suspense jamais seria alcançada desse jeito.

Numa segunda versão:

  • pessoas chegando, conversando e ocasionalmente se sentando à mesa de jantar.
  • imagem da bomba tiquetaqueando debaixo da mesa, revelando à audiência o que está prestes a acontecer.
  • sem saber da existência da bomba, as pessoas continuam suas conversas banais.
  • seguem-se tomadas da bomba, com planos cada vez mais próximos, intercalados com imagens dos convidados rindo e se divertindo, durante o jantar. As cenas se sucedem, cada vez mais rapidamente, até que a bomba, finalmente, explode e acaba com a festa.

Esta última versão da cena tem um impacto emocional muito maior na audiência.

  
Causa e Efeito

M uitas vezes, a função da continuidade na edição é de sugerir ou explicar a causa. Um bom roteiro ( valorizado por uma boa edição ) sugere ou explica o porquê dos fatos.

Um exemplo simples: em uma produção dramática, seria muito estranho mostrar alguém atendendo o telefone, sem que este tenha tocado. O telefone tocando demanda uma resposta... alguém atende.

Por outro lado, um filme policial, poderia começar mostrando o cadáver de uma mulher no chão da sala, mas deixaria para revelar quem a matou e porque o fez - 90 minutos depois - no final do filme. Neste caso, o efeito precede a causa.

Apesar de as leis da continuidade estipularem que devemos apresentar os fatos numa seqüência lógica, neste caso, é bem mais interessante para a audiência, apresentar primeiro os resultados e ir revelando as causas, gradualmente, durante o filme.

A lgumas vezes, podemos omitir as prováveis causas e deixar as suposições por conta da audiência. Por exemplo, se vemos um take de alguém bêbado (efeito), podemos assumir com segurança que esta pessoa bebeu demais. (causa).

Se uma seqüência mostra alguém tentando fazer uma manobra de esqui difícil, pela primeira vez, seguida de outra, da mesma pessoa voltando com a perna engessada, concluímos que a experiência não foi bem sucedida.

Voltemos ao cadáver da mulher, na sala. Saber que o marido foi o autor do crime, pode contentar a polícia, mas não os espectadores. Na questão Causa e Efeito, haverá sempre uma outra pergunta: porquê?. E isto nos leva à uma outra questão : a motivação.   


Motivação

S ob motivação, podemos assumir qualquer uma das razões de sempre: dinheiro, ciúmes e vingança.

Mostrar que o motivo foi vingança não é o bastante, numa produção bem planejada. A vingança tem de ter uma causa.

Para responder a esta questão, talvez tenhamos de levar o espectador ao passado. Poderíamos mostrar que a mulher tinha vários amantes... a suspeita, o ciúme, o ressentimento e a raiva crescendo no marido, até o ponto em que estas emoções se tornaram incontroláveis.

Agora, podemos entender. Nos foram mostrados o efeito, a causa e a motivação. Tudo faz sentido.

O editor deve perceber a dinâmica dessas relações de causa e efeito, para poder manipulá-las com habilidade. Deve também entender um pouco de Psicologia, de forma a retratar fatos e sentimentos, realisticamente. E, com frequência, saber que não deve revelar respostas tão rapidamente. Em filmes de mistério, por exemplo, uma das grandes diversões da platéia está em tentar adivinhar, quem foi o autor do crime e o porquê.  


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© 1996 - 2002, Ron Whittaker
Tradução Graça Barreiros