Módulo 23

Revisado: 29/10/2003

 

 

Elementos de Composição:
Parte I

Nos próximos  módulos vamos apresentar as 15 regras de composição. Vamos começar pela mais importante...
 

Estabeleça seus  Objetivos com Clareza

1.Estabeleça seus objetivos com clareza e seja coerente com eles durante toda a produção. Seus  objetivos podem variar entre produzir um tratado sobre iluminação espiritual  ou apenas  criar uma experiência  de puro escapismo.

Ninguém começa a escrever uma frase sem ter  idéia do que quer dizer.  As frases visuais não são diferentes. Os bons escritores, produtores, diretores e editores devem saber o objetivo de cada tomada do programa. 

Assim, antes de começar a gravar,  duas coisas devem estar claras na sua mente: 

  • a razão específica daquela tomada;
  • o objetivo da tomada dentro do programa

"Eu não pude resistir; era uma cena tão bonita"  não justifica a inclusão de uma tomada que não tenha nada a ver com a  obra... não importando a beleza  ou outra característica interessante. 

Na melhor das hipóteses,  você irá prejudicar o ritmo do programa; na pior,  você  confundirá a sua audiência, sugerindo que aquela tomada tem um significado especial que o seu público deve perceber.

 

Devagar = Chato

E  falando em ritmo, devemos lembrar que  "devagar"  é normalmente associado a "chato" -- uma boa razão para mudar de canal e procurar alguma coisa mais interessante.  Com tantos canais para escolher,  a competição pela audiência é enorme. 

Se a informação é apresentada num ritmo arrastado ou se está num nível bem abaixo do conhecimento do público, o programa será percebido como chato.  Se a informação é apresentada depressa demais ou de uma maneira muito abstrata, a audiência  ficará confusa e frustrada. Em ambos os casos é provável que você perca o seu público para outros canais. 

A  velocidade com que as idéias são apresentadas nos programas tem aumentado dramaticamente nos últimos anos. Podemos ver isto nos filmes e novelas mais antigas. Compare uma novela ou mini-série de cinco anos atrás com uma atual. Para poder competir (isto é, manter a audiência) as produções dramáticas hoje apresentam locações exóticas, cortes rápidos, viradas emocionais mais freqüentes e de maior impacto, storylines mais ricas e  dinâmicas, e...
 

...aqueles dois ingredientes que garantem um aumento na adrenalina:  violência (e o  medo da violência) e sexo ( e a possibilidade de sexo). 

Os autores de romances costumavam  escrever  muitas páginas elaboradas para estabelecer  o clima de uma cena.  Os leitores de hoje são mais impacientes e provavelmente diriam "OK. Mas diga logo onde você quer chegar!" 

Como  professor universitário que ensina Produção de TV há algumas décadas,   posso afirmar que a maioria dos projetos de meus alunos são muito longos. As tomadas permanecem na tela por muito tempo depois de ter dado a sua mensagem. Na realidade, um bom editor poderia cortar a duração destes vídeos ou programas pela metade...e torná-los mais efetivos e interessantes no processo. 

O que nos leva a um importante ditado:

Na dúvida, corte a cena.

"Mas," a pergunta que sempre é feita "um bom programa não é sempre  bom  independente da sua época ?" 

Infelizmente de uma perspectiva comercial, a resposta é "não".

Por exemplo, para os não-iniciados, a maioria dos filmes clássicos, que fizeram a História do Cinema, são considerados chatos. A maioria tem um ritmo muito lento para prender a atenção do público de hoje.

Citizen Kane considerado por muitos historiadores como o maior filme americano -- e  em termos técnicos, muito à frente do seu tempo,  na época em que foi produzido -- dificilmente prende a atenção do espectador médio.

Os roteiristas de TV  costumavam  desenvolver apenas uma idéia dramática (plot) para uma novela. Hoje, para manter a audiência, os programas dramáticos feitos para a TV consistem de vários plotse subplots  interligados.

Descrevendo Estados Emocionais


Q uando tentamos descrever estados emocionais temos a maior dificuldade para determinar o que é relevante.  Cenas que aparentemente não tem nenhuma relação -- pessoas presas em  engarrafamentos, filas de pessoas  passando por uma roleta, tomadas de um grande número de  pessoas subindo em escadas rolantes -- podem ser importantes para estabelecer o estado de agitação interior de um personagem tentando suportar a vida em uma cidade grande.

Porém uma tomada com "uma linda garotinha com um laço vermelho na cabeça"  (que você não conseguiu deixar de incluir)  não apenas intrigaria a sua audiência  à respeito do papel da menina, mas iria provavelmente induzir a audiência a  acreditar erroneamente que existe uma relação entre a menina e o personagem principal da história.
 

Como espectadores assumimos que cada  tomada, gesto ou palavra em um diálogo de um programa de TV  está lá para construir ou reforçar a idéia central.
 

Em busca da Unidade


2.
Vá em busca da unidade

Se estudarmos um grande filme ou uma foto premiada, fica geralmente evidente unity.jpgque todos os elementos da tomada foram selecionados ou arranjados de forma a passar uma idéia.

Esta idéia pode ser apenas um sentimento abstrato. Quando os elementos de uma tomada se combinam para criar uma declaração visual , dizemos que a tomada tem unidade.

Este conceito também se aplica a coisas como iluminação, cor, figurino, cenário e elementos de cena. Por exemplo, você pode decidir que irá utilizar cores desbotadas  para imprimir um determinado clima ou atmosfera no programa. Ou, você pode querer criar um clima utilizando baixos níveis de luz em um cenário  com muitas texturas em tons pastéis. 

Estas decisões, irão criar um clima ou visual que irão dar ao seu programa um sentido de unidade.


Construa a Composição em torno de um Centro de Interesse 

3. A terceira regra se aplica a cenas individuais:  Construa a composição em torno de um único centro de interesse.

Antes de gravar uma cena, questione qual o  elemento da tomada que comunica a sua idéia básica. Começando pelo mais óbvio, pode ser a pessoa que está falando. Ou pode ser algo mais sutil e simbólico. Seja o que for, os elementos secundários dentro da cena devem apoiar e não tirar a atenção da audiência sobre o elemento principal.

Centros de interesse múltiplos podem funcionar bem em circos com três picadeiros, onde os espectadores podem mudar o foco de sua atenção de um centro de interesse para outro. Mas, centros de interesse que competem dentro de um único quadro visual, dividem e confudem o significado.  

Pense em cada tomada como uma frase.

U ma  frase bem escrita deve ser construída em torno de de uma idéia central e dispensar qualquer  elemento que não apoie, explique ou que de alguma maneira adicione ao sentido daquela sentença.

Considere esta frase "Homem falando ao telefone, estranhas pinturas na parede, um cabide de casacos atrás da cabeça dele, aparadores de livros interessantes na mesa, som de motocicleta passando, mulher passa ao fundo..." 

Embora nós possamos achá-la engraçada, alguns videomakers criam frases visuais como essas que incluem  elementos confusos e sem relação.
 

N ão estamos sugerindo que você elimine tudo que não seja o centro de interesse, apenas o que de alguma maneira não apoie a idéia central que se pretende  apresentar.

A cena pode, de fato, estar repleta de objetos e pessoas; como por exemplo, um Plano Geral de  uma pessoa trabalhando em uma agitada redação de jornal. Mas cada objeto ou pessoa  deverá  pertencer  ou se encaixar naquele universo e nada deve roubar a atenção do centro de interesse. 

Um master (wide) shot  do interior de uma autêntica casa de fazenda do século XVIII pode incluir dezenas de objetos. Mas, cada um deles deve somar à  sentença "uma casa de fazenda do século XVIII". Apenas tome cuidado para colocar estes elementos de apoio em uma posição secundária. 

Lembre-se que o espectador tem um tempo limitado -- geralmente apenas alguns segundos -- para compreender o conteúdo e o significado da tomada. Se algo não ficar claro  antes da tomada mudar, o espectador irá perder o significado da cena. (Lembre-se que uma das definições de "diretor" é alguém que "dirige a atenção". )

Lembre-se também que os olhos vêem seletivamente e em três dimensões. O olhar tende a excluir o que não é relevante no momento. Mas a câmera de TV não vê da mesma maneira, da mesma forma que um microfone não é capaz de ouvir seletivamente e grava todos os ruídos do ambiente.


Foco seletivo para o Resgate 

P arte do "visual  do cinema"  que tanta gente gosta vem do  uso do  foco seletivo (de que  falamos em um  módulo anterior) .

Os  primeiros filmes (celulóide) não eram muito sensíveis à luz e as lentes tinham de ser usadas com aberturas (f-stops) relativamente altas para conseguir  uma exposição adequada. Isto em parte era  positivo, pois os cineastas tinham de  focalizar o elemento principal de cada tomada
(e tirar de foco os elementos secundários à frente e atrás) levando as audiência  imediatamente ao centro de interesse da cena sem nenhuma  distração.

Mesmo  com as emulsões para filmes de alta velocidade de hoje, os diretores de fotografia buscam reter o efeito do foco seletivo filmando com um nível  de iluminação comparativamente baixo.

Os mesmos princípios que funcionaram tão bem para o cinema podem ser usados em vídeo. Note que os elementos de  fundo e à  frente da cena foram tirados de foco na foto acima, de forma que a atenção seja centralizada na jovem mulher. 

Este nível de controle da imagem  exige um planejamento extra quando utilizamos as câmeras com CCD altamente sensíveis. O circuito de auto-íris geralmente ajusta o f-stop para uma abertura que faz com que os elementos à frente e atrás da cena fiquem em foco.

Para usar o controle criativo inerente ao foco seletivo, devemos exercer o controle sobre a velocidade (high speed shutter), filtros de densidade neutra ou sobre a iluminação da cena.
  

Onde está a Luz...

olho é atraído para as áreas mais brilhantes de uma cena. Isto quer dizer que o uso cuidadoso da iluminação pode ser uma ferramenta de composição neste caso para enfatizar importantes elementos cênicos e para desenfatizar outros.

Como será discutido nos próximos módulos sobre iluminação, barn doors são freqüentemente usadas com lâmpadas no estúdio para diminuir a importância dos elementos em uma cena tornando-os um pouco mais escuros.  Nós veremos mais exemplos deste tipo nos módulos referentes à iluminação.
  

Mudando o Centro de Interesse

As composições  estáticas, mantêm um único centro de interesse; nas composições dinâmicas, os centros de interesse podem mudar com o tempo. 

O movimento também pode ser usado para mudar o foco de  atenção. Embora nosso olho possa estar fixo no centro de interesse da cena, ele  será atraído pelo movimento numa área secundária  da imagem. Alguém entrando em cena é um bom exemplo. 

Como já notamos em um módulo anterior, nós podemos forçar a audiência a mudar a atenção usando a técnica de rack focus, mudando o foco da lente de um objeto para o outro.
  

Coloque o Elemento Mais
Importante no Lugar Certo


4. A quarta regra de composição é: coloque o elemento principal no lugar certo.
A maioria dos fotógrafos de final de semana, armados com suas máquinas automáticas, sentem que têm de colocar o centro de interesse -- seja ele Tio João ou a Torre Eiffel -- no centro do quadro.

Isto geralmente enfraquece a composição da cena.

 
 

Deixe Espaço para o Movimento

G eralmente, quando alguém está se movendo em uma determinada direção, devemos deixar espaço no lado do quadro para o sujeito(s) "se mover". Isto é conhecido pelos americanos como leading the subject. 
 
 

D a mesma maneira, devemos deixar "espaço para o olhar" quando o sujeito está olhando para fora do quadro, como nesta imagem.
 

Regra dos Terços

E xceto para closeups de pessoas, geralmente o melhor é colocar o centro de interesse perto de um dos pontos indicados pela color="#FF2631"regra color="#EE1A24" dos terços. Nela a área total da imagem é dividida vertical e horizontalmente em três partes iguais.

Embora geralmente seja melhor colocar o centro de interesse em algum lugar perto das duas linhas horizontais e  verticais, geralmente a composição é mais forte se o centro de interesse ficar em  um dos quatro pontos que se cruzam.

Veja aqui dois exemplos:
 
 

bagpipe.jpg

  Algumas  câmeras  tem até a grade da regra  dos terços em seus visores. Mas, lembre-se nós estamos falando de regra dos terços, não lei dos terços.  A regra dos terços é apenas uma linha mestra -- uma das possibilidade (junto com outras linhas mestras) que devem ser consideradasquando você estiver compondo a cena.
 

Linhas Horizontais e   Verticais 

Fotógrafos de fim de semana tipicamente também se esforçam para colocar as linhas horizontais centralizadas perfeitamente no meio do quadro. Isto também enfraquece a composição dividindo o quadro em duas metades iguais.

De acordo com a regra dos terços as linhas horizontais devem estar ou no terço de cima ou no terço debaixo do quadro. Da mesma maneira as linhas verticais não devem dividir o quadro em duas partes iguais. Da regra dos terços nós podemos concluir que geralmente o melhor lugar para se colocar uma linha vertical  dominante  é ou no primeiro terço ou a dois terços do quadro.

É geralmente uma boa idéia quebrar ou interceptar linhas dominantes, contínuas com algum elemento cênico. De outra maneira a cena pode parecer dividida.

Um horizonte pode ser quebrado por um objeto no primeiro plano (na frente do quadro). Isto geralmente pode ser feito simplesmente movendo-se a câmera.

Uma linha vertical pode ser interrompida por alguma coisa tão simples quanto um galho de árvore.

Aqui,  embora a linha de horizonte esteja no centro do quadro, os mastros de um barco quebram a linha evitando que ela divida o quadro ao meio.

Videomakers ficaram  conhecidos por pedirem à pessoas para segurarem um galho de árvore de forma que este se projetasse  de um lado da  tomada quebrando uma linha ou tornando a composição mais interessante.

O texto complementar sugerido para este módulo se refere a um assunto social importante: Produção de TV e violência 

 


Voltar ao Índice              Próximo módulo


Search For Terms     

Bibliography / Additional Readings                      To TV Production Index

                  

© 1996 - 2002, Ron Whittaker
Tradução Graça Barreiros