Revisado: 29/10/2003

Módulo 12

 

 
 

F-stops e Técnicas de Foco Criativo

  G atos e corujas podem ver melhor na penumbra que nós humanos, em parte porque as lentes de seus olhos permitem a  entrada de mais luz. Nós poderíamos dizer que a lente dos olhos destes animais  é mais "veloz" que a lente dos nossos olhos.

A velocidade de uma lente é definida como a quantidade máxima de luz que a lente deixa passar. As lentes rápidas são caras porque contêm muitos elementos de cristal e são difíceis de projetar  e construir. 

Como a pupila do olho que automaticamente se ajusta a diferentes  níveis de luz,  a lente da câmera possui um diafragma (íris)  que controla a quantidade de luz que passa através da lente.  

Todos sabemos que em condições de pouca  iluminação a íris (pupila) de nossos olhos se abre quase completamente para permitir uma maior entrada de luz. E que sob a intensa luz solar, a pupila se contrai num esforço de evitar a sobrecarga dos cones e bastões sensíveis à  luz no fundo de nossos olhos.

Da mesma forma, a quantidade de luz que incide no target fotosensível da câmera de TV deve ser cuidadosamente controlada com a ajuda da íris (diafragma) no meio da lente. Demasiada luz, faz com que a imagem fique superexposta (estourada) e lavada; pouca luz resulta em uma imagem com pouco contraste e na  perda de detalhe nas áreas mais escuras da imagem.

Embora a íris possa ser ajustada desde uma abertura mínima até a abertura total, certos pontos específicos na escala de números são marcados de acordo com o grau de transmissão de luz. Estes pontos são chamados f-stops .

Ao contrário do que parece, quanto menor o número de f-stop mais  luz passa pela lente.


 

1.4, 2.0, 2.8, 4.0, 5.6, 8, 11, 16, 22 

<===   mais luz      menos luz ==>


Ocasionalmente, não encontramos alguns destes números marcados na lente. Por exemplo f/1.2, f/3.5 y f/4.5. Estes são pontos médios entre os f-stops completos, e em algumas lentes representam  a máxima abertura (velocidade) da lente.

Esta figura compara uma série de f- stops.      
Já  vimos que a velocidade de uma lente é igual ao número de f-stop que corresponde a maior abertura da íris - na figura acima, representada  por  f/1.4.

Quando aumentamos a abertura da íris em um f-stop (de f/22 para f/16 por exemplo), isto representa um aumento de 100 por cento na quantidade de  luz que passa pela lente. Pelo contrário, se fechamos o diafragma (de f/16 para f/22, por exemplo), a luz é reduzida em 50 por cento. 

Dito de outra maneira, quando se sobe um ponto  na escala de f-stops, a quantidade de luz é  duplicada ; quando se desce um ponto na escala se divide pela metade a luz que passa pela lente.

U ma vez que a escala de f-stops tenha sido compreendida (e memorizada), fica óbvio em que direção devemos ajustar a íris para compensar por uma imagem demasiado clara ou escura.

As câmeras com controle de exposição automático utilizam um pequeno motor elétrico que abre e fecha automaticamente a íris de acordo com as variações da luz. Nas câmeras profissionais os f-stops são visíveis na barra da lente, e algumas vezes no viewfinder (visor) da câmera.

Em muitas câmeras caseiras os números não aparecem.  Ainda assim, o conhecimento sobre  a íris da câmera e  como ela afeta a exposição e  a profundidade de campo são importantes para o controle (e a qualidade) da imagem.

Embora as câmeras com controle de exposição automático possam ser uma vantagem em situações tais como a gravação de  matérias jornalísticas (onde não há tempo para ajustar adequadamente a câmera), existem situações  em que o modo automático não resulta na melhor imagem de vídeo. Fundos brilhantes, luzes e janelas em uma cena, geralmente provocam o escurecimento da imagem (sub-exposição) e o esmaecimento das cores quando se utiliza o controle de exposição automático. Este problema aparece bastante em vídeos de amadores e nos trabalhos de estudantes de vídeo.

  

Profundidade de Campo

A profundidade de campo é definida como a área enquadrada pela câmera nitidamente em foco. Teoricamente, se o foco da lente é ajustado para uma distância específica, somente os objetos a esta exata distância estariam nítidos; e os objetos à frente ou atrás deste ponto apareceriam embaçados em diferentes graus.

Na realidade, áreas à frente e atrás do ponto de foco poderão estar aceitavelmente nítidas. O termo aceitavelmente nítidas é subjetivo. Uma imagem não se torna inaceitavelmente embaçada - à frente ou atrás do ponto de foco - de repente. A transição entre a imagem nítida e fora de foco é gradual.

Em termos práticos, o limite de nitidez é alcançado quando os detalhes ficam difíceis de distinguir. Isto varia de acordo com o meio. O que é aceitavelmente nítido na televisão padrão NTSC será muito menos que aceitável para HDTV/DTV. No último caso a claridade superior do meio irá revelar mais rapidamente os problemas de nitidez.

  

F-stops e a Profundidade de Campo

Q uanto maior o número do f-stop (menor a abertura da íris) maior a profundidade de campo. Portanto, a profundidade de campo de uma lente em f/11 será maior que a da mesma lente usando f/5.6; e a profundidade de campo de uma lente utilizando f/5.6 será maior que a mesma lente utilizando f/2.8.

 

Com exceção do ECU (Extreme Close Up), a profundidade de campo se estende por aproximadamente 1/3 à frente e 2/3 para trás do ponto de foco. Esta figura ilustra a área de foco da imagem.

  

Profundidade de Campo e Distância Focal

E mbora a profundidade de campo também pareça estar relacionada com a distância focal das lentes, esta é uma relação apenas aparente. Se mantivermos o mesmo tamanho da imagem no target, todas as lentes utilizando f-stop específicos terão aproximadamente a mesma profundidade de campo, indiferente da distância focal.

A razão pela qual uma lente grande angular parece ter uma profundidade de campo melhor que a de uma teleobjetiva é que, por comparação, o tamanho da imagem no target da câmera é muito menor. A imagem reduzida gerada pela grande angular simplesmente oculta melhor a falta de nitidez.

Se tivéssemos que ampliar um detalhe de uma imagem gerada por uma grande angular, e a comparássemos com a imagem correspondente gerada pela teleobjetiva, veríamos que a profundidade de campo é exatamente a mesma.

N a medida em que as lentes grande angulares (ou lentes zoom usadas na posição de grande angular) são ótimas para ocultar a falta de nitidez, elas são uma boa opção para o cinegrafista quando o foco preciso é um problema.

É claro que quando utilizamos a grande angular precisamos nos aproximar do objeto para manter o mesmo tamanho da imagem na tela. Isto significa, voltar para onde começamos; ao nos aproximar perdemos a vantagem da nitidez disfarçada que nos motivou a utilizar a lente grande angular em primeiro lugar.

Com uma teleobjetiva ou uma lente zoom usada na posição de teleobjetiva, o foco tem de ser muito mais preciso. De fato, quando a zoom está totalmente aberta (em sua máxima distância focal) a área de nitidez aceitável pode ser menor que um centímetro -- especialmente se a íris é usada na abertura máxima (número pequeno de f-stop).

Isto pode representar um grande problema ou ser uma ferramenta criativa em termos de composição. No último caso o foco pode ser um recurso para forçar o espectador a se concentrar em um objeto ou área específica da cena. (Nossos olhos tendem a evitar áreas da imagem que não estão claras, e são atraídos para as áreas nitidamente focadas.)

Muitas das coisas que discutimos até agora são freqüentemente confundidas. Para uma discussão completa sobre os mitos sobre as  lentes clique aquí .

 

Fazendo o  Foco

M uita gente pensa que focar uma lente se resume a "ver as coisas nítidas", mas na realidade esta questão é um pouco mais complexa. 

Nesta altura já deve ter ficado claro que para fazer o foco da lente zoom devemos primeiro enquadrar o objeto em close-up (usando a máxima distância focal), já que os erros de foco são mais óbvios nesta posição. Com o foco ajustado, a lente pode ser colocada em qualquer outra distância focal desejada.

Se a cena contém uma pessoa, é recomendável focar no reflexo da luz no olho. Existem duas razões para isto: os olhos das pessoas são normalmente o primeiro elemento que vemos em uma cena, e este pequeno ponto brilhante é fácil de focar.

Se o foco é ajustado utilizando-se uma tomada aberta, mais tarde, durante um zoom in você verá que a imagem inevitavelmente sairá de foco (o erro que não era percebido antes, de repente será magnificado).

  

Foco Seletivo

U ma das ferramentas criativas mais importantes nas mãos de um cinegrafista é o foco; ele pode decidir sobre o que vai estar em foco e o que não estará nítido. Isto acaba sendo uma maneira efetiva de dirigir a atenção do público para detalhes importantes da cena e desviar a atenção de coisas que podem distrair ou que não devam ser percebidas.

O termo foco seletivo é usado para descrever o processo de se utilizar uma profundidade de campo limitada para intencionalmente tirar de foco determinadas áreas da imagem. Esta técnica é amplamente usada em películas e associada ao "film look" que agrada tanto a tantos. A fotografia das flores acima (com a água ao fundo fora de foco) é um exemplo de foco seletivo.

Considere esta cena. Se o fundo estivesse em foco, as flores teriam se confundido com os outros elementos.

Como podemos controlar a área de foco de uma cena?

  

Follow Focus 

E m produção de vídeo geralmente trabalhamos com objetos em movimento. Uma pessoa pode se mover rapidamente para fora dos limites de profundidade de campo, por isso o foco da lente deve ser ajustado rapidamente.

Os cinegrafistas profissionais sabem para que lado girar o controle de foco para manter o objeto em movimento perfeitamente nítido. (os não profissionais terminam trocando uma imagem ligeiramente embaçada por outra completamente fora de foco ao tentar ajustar o controle girando-o na direção incorreta.). A técnica de follow focus (seguir com o foco) é usada para ajustar o foco sutilmente adequando-o às variações contínuas de distância de um objeto em movimento.

  

Ajuste da Lente Macro
eagle.jpg A maioria das lentes zoom possui uma posição de macro que permite o foco definido em um objeto a apenas alguns centímetros e até milímetros de distância da lente. Com algumas lentes o objeto pode inclusive estar a "distância zero"; isto é, em contato com o elemento frontal da lente.

Embora isto varie, geralmente para alcançar a posição macro em muitas lentes se aperta um botão ou um pino na barra da lente, o que permite às lentes da zoom ultrapassarem o ponto normal de ajuste.

  Muitas das novas lentes são chamadas de lentes de foco contínuo. Estas são lentes de foco interno que podem ser ajustadas contínua e suavemente do infinito a apenas alguns centímetros sem terem de ser colocadas manualmente no modo macro. 

Os videomakers com freqüência se esquecem da capacidade da macro, porém ela oferece muitas possibilidades dramáticas. Por exemplo, uma flor, um selo, um detalhe de um desenho ou fotografia podem encher toda a tela da TV. O uso do tripé é obrigatório quando utilizamos a lente macro. A profundidade de campo desta lente se limita a uns poucos milímetros e por isso o foco é extremadamente crítico.

  

Foco Variável  

 
bed1.jpgO foco variável é similar ao foco seletivo, o cinegrafista muda o ponto de foco para dirigir a atenção do espectador de uma parte da cena para outra.bed2.jpg

Observe como o foco variável é usado nesta série de fotografias. Primeiro vemos a mulher (em foco) dormindo. bed3.jpg Quando o telefone toca, o foco muda para o telefone (acima). Quando ela atende o telefone e começa a falar, o foco muda (varia) de novo para ela.
 

 

Para utilizar esta técnica é necessário ensaiar a mudança de foco de forma que se possa girar o anel de foco manualmente entre os pontos pré-definidos. Alguns videomakers marcam estes pontos temporariamente na barra de suas lentes para poderem mudar o foco de um ponto para o outro sem erro.

 

Foco automático

E mbora as lentes com foco automático possam ser de grande ajuda para seguir objetos em movimento, podemos encontrar problemas se não compreendermos esta função e suas (muitas) limitações.

   Em primeiro lugar, o dispositivo de foco automático geralmente assume que a área que se deseja manter nitidamente em foco é o centro da imagem. E este geralmente não é o caso - especialmente se você está tentando conseguir uma composição interessante e criativa.bed4.jpg

Na seqüência utilizada para ilustrar o foco variável, o foco automátido seria inútil, já que a área que desejamos manter em foco não se encontra no centro do quadro. Se desejássemos utilizá-lo teríamos que mover a câmera para cima e para baixo (tilt up / down) de forma que a área de foco automático (central) coincidisse com a área de foco desejada. Isto mudaria a composição da cena de uma forma tal que muitos considerariam indesejável.

A solução para isto seria a criação de um sistema de foco automático que rastreasse o movimento do olho no visor da câmera e ajustasse o foco de modo que se você estivesse olhando para a mulher, a câmera focalizaria ali; porém, assim que você olhasse para o telefone, a câmera mudaria o foco para aquele ponto. 

Os sistemas de foco automático possuem ainda outra grande desvantagem: muitos mecanismos de foco automático podem ser enganados por objetos "difíceis" tais como reflexos e áreas monocromáticas planas e desprovidas de detalhe.

A maioria dos sistemas de foco automático também têm dificuldade de fazer foco quando estão gravando através de vidro, cercas de arame, etc. E, finalmente, os dispositivos de foco automático (especialmente em situações de pouca luz) ficam procurando ou reajustando o foco quando a câmera está gravando -- o que provocará distração na audiência.

Por todas estas razões, os videomakers profissionais prefererem desligar o foco automático -- se este existir em sua câmera -- e confiar em suas próprias técnicas de foco. A única exceção é feita para situações caóticas onde não há tempo para o ajuste manual do foco em objetos em movimento.


 

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© 1996 - 2002, Ron Whittaker
Tradução Graça Barreiros