Revisado: 29/10/2003

Módulo 5

 

Roteiro - O Elemento-
Chave 

Com esta visão geral do processo de produção, podemos passar à análise do elemento mais importante do processo de produção: o roteiro .  

Existem programas semi-roteirizados e totalmente roteirizados. 

Na primeira categoria estão as entrevistas, debates, programas de auditório e programas de variedade. O roteiro de programas semi-roteirizados parece uma lista e contém apenas os blocos do programa e sua duração. 

São roteiros razoavelmente fáceis de escrever. Em contrapartida, os programas improvisados colocam uma grande pressão no diretor e no elenco da produção, que têm de providenciar, resolver e improvisar, à medida que o programa (ou gravação) acontece e fazer com que tudo funcione. 

Em contraste, nos programas inteiramente roteirizados, o script mostra os segmentos de áudio e vídeo, para cada segundo. Neste tipo de roteiro, o conteúdo global, equilíbrio, andamento e ritmo podem ser imaginados, antes do início da produção. As surpresas desagradáveis são grandemente minimizadas (note que não dissemos eliminadas). 

  

Do Concreto para o Abstrato  

As matérias jornalísticas (hard news) e documentários devem ser concretos e objetivos, isto é, devem apresentar as informações da forma mais clara possível, a fim de eliminar quaisquer mal-entendidos. De fato, quanto mais capaz você for de explicar as coisas com clareza, mais possibilidades você terá de obter sucesso profissional. 

 Em contraste, nas produções dramáticas, matérias e programas soft e videoclipes musicais é freqüentemente desejável não ser muito objetivo para dar margens à interpretação pessoal.  

Vejamos estes dois exemplos. 

Um vídeo de treinamento sobre a operação de um software precisa ser concreto e objetivo. Devido à natureza dos computadores e programas (softwares), a informação deve ser apresentada passo-a-passo, da maneira mais clara possível.  

Embora a apresentação deva ser interessante, criativa e possivelmente humorística, o sucesso desse tipo de produção dependerá basicamente da aprendizagem daquela seqüência de procedimentos operacionais. 

Se a maioria das pessoas que assistirem ao vídeo, aprender a utilizar o software, você foi bem sucedido caso contrário, você fracassou!  

Por outro lado, uma matéria sobre a Moda Verão requer uma abordagem diferente. Considerando o fato de que a audiência já viu um sem número de matérias do gênero na televisão, o primeiro desafio é: como abordar o assunto de uma maneira original, criativa e que chame a atenção do público? Se encaramos este desafio, provavelmente fazer a matéria será a parte mais fácil da estória. 

Ao contrário de computadores e componentes estéreos, artigos de Moda não são vendidos com base em especificações técnicas. A Moda apela forte ao ego e às emoções. Assim, ao fazer uma matéria sobre Moda, não estamos interessados em comunicar fatos objetivos, mas em provocar sensação sobre as novidades; isto é, provocar uma reação emocional. 

Da mesma maneira, uma matéria sobre aulas de jazz (a dança, exercícios baseados em jazz) não daria grande ênfase aos fatos, mas à ação. O objetivo seria o de comunicar algo sobre o sentimento de bem-estar, derivado do exercício e da boa forma física. 

Uma vez definidos o objetivo e o enfoque da produção e conhecidas as características da audiência, os vários elementos do programa podem ser selecionados e providenciados. 

A seqüência linear e lógica é, certamente, a abordagem mais natural para se estruturar o conteúdo de um roteiro - especialmente quando a informação tiver de ser apresentada passo-a-passo e de maneira objetiva. 

No entanto, muitas vezes, é desejável abandonar a apresentação linear e estruturada - que pode se tornar previsível e chata

Algumas produções utilizam as técnicas de flashback (retorno momentâneo a eventos do passado) ou parallel stories (estórias paralelas) - duas ou três estórias apresentadas simultaneamente - para dar variedade e estimular o interesse. 

Seja qual for o caminho, certifique-se de que a apresentação do assunto irá captar a atenção e manter o interesse da audiência. Isto acontece quando conseguimos que o público se envolva emocionalmente. Faça com que a sua audiência se comova. Apresente as idéias de forma original e criativa. Utilize uma grande variedade de imagens e sons. Lembre-se, se você perder a audiência, todo o seu esforço terá sido inútil. 

O roteiro ajuda a organizar e visualizar os principais elementos do programa. À medida que você estuda as diferentes cenas delineadas no script, tente imaginá-las. Você consegue ver pontos fracos que carecem de elementos para manter atenção do público? Faça mudanças!   

  

Colocando Molho nas Entrevistas

Para o bem ou para o mal, as entrevistas são o sustentáculo da maioria das produções não-dramáticas na televisão. Por causa disto, e pelas dificuldades envolvidas para torná-las interessantes, as entrevistas merecem uma atenção especial.  

Embora as imagens do repórter e entrevistado falando (talking heads) - sejam monótonas, elas emprestam autenticidade e credibilidade à entrevista. A informação é obtida diretamente da fonte. O que é certamente melhor e mais confiável do que ter um narrador apresentando a mesma informação.  

Podemos introduzir variedade no áudio e vídeo dos programas centrados em entrevistas, cortando regularmente para novos oradores (repórteres ou entrevistados) em outras locações.  

A menos que o entrevistado seja um orador talentoso, uma pessoa extremamente interessante ou esteja relatando um evento comovente e altamente dramático, as entrevistas devem ser divididas em segmentos curtos e ilustradas (durante a edição) com material relacionado ao assunto. 

Lembre-se que, uma vez tenhamos mostrado a imagem do entrevistado, não há muito a se ganhar, se mantivermos o mesmo plano, enquanto ele continua a falar. Manter o áudio da entrevista (em off) e utilizar takes de apoio para ilustrar o que está sendo dito pode aumentar o interesse e acelerar o ritmo do programa.  

Os takes de apoio são geralmente gravados numa fita separada. Este material é conhecido como B-roll e consiste tipicamente de planos de pessoas, objetos ou lugares relacionados à entrevista básica (gravada na fita conhecida como A-roll). Durante a edição, esses planos são inseridos na entrevista - evitando assim, a monotonia visual dos talking heads e acrescentando informações importantes para a compreensão do que está sendo discutido.  

Sempre que você for planejar uma entrevista, planeje também a gravação dos takes de apoio (B-roll footage) para complementar o assunto em pauta. Muitas vezes, você só ficará sabendo o que deve gravar após a realização da entrevista. Por isso, seja flexível e mantenha as suas opções de produção abertas.  

A fase de edição é uma parte muito importante do processo de produção de um programa de entrevistas. Transformar o material gravado nas fitas A-roll e B-roll num programa coerente (e inteligente) não é uma tarefa fácil.  

Roteiristas experientes (com boa memória) quando estão preparando o roteiro de edição de uma entrevista, normalmente precisam apenas rever as fitas gravadas para fazer anotações sobre tópicos e localização dos segmentos. Este método freqüentemente dá margem a erros e mal-entendidos - especialmente quando uma outra pessoa realiza a edição.  

Existe um método melhor.  

Time Code, também conhecido como time code SMPTE / EBU - devido às organizações que o adotaram - é um número de oito dígitos que identifica as horas, minutos, segundos e quadros de um vídeo, com precisão.  

Utilizando esses números, podemos especificar pontos exatos nas fitas de vídeo gravadas, para fins de edição. Se a localização dos pontos de entrada e saída listados num roteiro estão expressos em time code, as chances de erros e mal entendidos são virtualmente eliminadas. Falaremos mais de time code nos módulos referentes à Edição.  

Os roteiristas que preferem um método de trabalho mais sistemático começam o processo obtendo uma transcrição das entrevistas digitadas em computador (geralmente com a referência de time-code). O que ajuda bastante quando as entrevistas são longas ou numerosas e precisam ser cortadas e reordenadas. 

Uma vez gravada no disco do computador, podemos realizar pesquisas por palavras ou frases e localizar rapidamente palavras-chaves ou tópicos importantes, nos vários segmentos da transcrição. Esses segmentos podem então ser condensados, reordenados e montados na tela do computador com a finalidade de criar um fluxo lógico e interessante. 

A maioria dos softwares editores de texto possibilita a abertura de duas ou mais janelas na tela do computador. Desta forma, podemos utilizar uma janela para pesquisar e revisar a transcrição, enquanto escrevemos o roteiro na outra. Isto facilita muito o trabalho, na medida em que podemos simplesmente "cut and paste" (cortar e colar) o texto de uma janela para outra.  

Quando os números de time code estão associados aos segmentos de vídeo, o trabalho se resume a anotar os pontos de entrada e saída dos segmentos que pretendemos usar. Da mesma maneira, devemos anotar as referências de time code dos takes de apoio que serão necessários.  

Sempre que for necesssário explicar, aprofundar idéias ou estabelecer ligações (criar "ganchos") entre os segmentos do programa, devemos utilizar a narração. O texto é lido pelo locutor (em off) e coberto com imagens do B-roll.  

Ao escrever o roteiro devemos procurar, a cada momento, utilizar os meios mais efetivos para a representação audiovisual de nossas idéias.  

Que tipo de técnica irá ilustrar melhor este conceito? Um narrador? Um trecho de entrevista? Uma seqüência animada por computação gráfica? Um gráfico ou uma fotografia? 

À medida que os elementos vão se juntando e o roteiro vai tomando forma, imagine-se assistindo ao programa e tente visualizar exatamente o que está acontecendo. Dizem que os grandes compositores podem ouvir mentalmente cada instrumento, no momento em que escrevem a música. Da mesma maneira, roteiristas devem ser capazes de visualizar as cenas que escrevem no roteiro. 

Ao estabelecer o andamento do programa, devemos constantemente alterar o ritmo. Períodos longos de ação rápida irão cansar a audiência tanto quanto os períodos longos e lentos.  

Com exceção das montagens curtas e rápidas, os takes de uma cena devem ter, pelo menos, três segundos de duração. Por outro lado, somente uma cena com muita ação ou intensidade será capaz de manter a atenção da audiência por mais de um minuto. (Takes de cinco ou dez segundos estão mais dentro da norma).  

As partes mais importantes de um programa são o começo e o final. Para atrair e manter a atenção da audiência, os programas devem envolver o público, rapidamente. E para deixar a platéia com uma impressão positiva, o programa deve ter um final de impacto. Para manter o interesse, durante o programa, devemos variar o ritmo, conteúdo emocional e estilo de apresentação. O que não é uma tarefa fácil. 

 


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© 1996 - 2002, Ron Whittaker
Tradução Graça Barreiros